quinta-feira, 2 de abril de 2015

Acordar, levantar, vestir. A vontade é pouca mas obrigo-me a fazer coisas porque não posso parar. Há muito tempo atrás, alguém que ficou perdido no passado me ensinou que parar é morrer. E então faço tudo. Saio da cama, como, lavo os dentes e, acima de tudo - nunca baixo os braços. Ás vezes, quando a insegurança e a vulnerabilidade atacam em força, olho ao espelho e digo àquele reflexo: "tu és capaz". E sou, diabos me levem se não sou. 

Estão a ver, poucos são os dias em que acordo com real vontade de sair da cama. Porque dormir acaba por ser melhor que enfrentar a realidade. Felizmente, a minha realidade é melhor que a de muita gente, tenho um tecto e uma família que nunca me abandonou, e posso ter poucos amigos mas mais vale poucos e bons. O pior de ter de enfrentar a realidade é enfrentar-me a mim mesma todos os dias. É ter de criar uma rotina porque não tenho uma, é ter de olhar todos os dias para os classificados e para a merda dos sites de emprego e perceber que se calhar não há saida sem ser além-fronteiras. 

A minha luta começa aí... E não acaba nunca. 


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Hoje não venho aqui falar das coisas do costume. Não venho reclamar do desastre habitual que é a vida, fazer queixas das intermitências da morte, ou escrever sobre sexo. Não venho discutir trivialidades, nem lutar contra as lágrimas, muito menos esforçar-me nas palavras . o que tenho para dizer não é rápido, não é fácil, é muito menos é terapêutico. É apenas um pouco mais pessoal. 

Rotineiramente, de quinze em quinze dias acordo às oito e meia e vou ver uma terapeuta que, regra geral, incentiva este tipo de random babblings. Não que eu goste particularmente disto, mas aqui vou eu. Esta semana o tópico principal de conversa foi, na verdade, a morte. 

Isto porque tenho alguém que estimo muito no hospital que, por qualquer razão que não consigo descortinar, desligou o chip e está em bastante mau estado (pôr paninhos quentes na questão não ajuda, mas eu sei que há quem leia isto e dizer às portas da morte faz-me soar tão heartless que o foco disto tudo perde-se). E eu não posso simplesmente entar pelo hospital adentro e perguntar-lhe porquê. E a minha cabeça também não percebe porquê. Se nem os médicos entendem... 

Bem, no fundo, a questão aqui é que, todo o ser que vive, mais cedo ou mais tarde morre. Isto diz-me a terapeuta, em jeito de me preparar para o pior. Diz-me que se calhar chegou a hora dela. Mas as horas não chegam assim. Ou chegam ? 

Que confusão. Bem, eu disse que isto hoje ia ser simples. E também disse que não ia fazer queixas das intermitências da morte. Só queria compreender porquê. E que fosse simples, para variar. Resta-me voltar à terapia, e tentar compreender. Afinal, é só seguir a rotina...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Estes quatro olhos são muitas vezes os mais duros que tenho de enfrentar. São aqueles que desaponto mais vezes, aqueles que me esforço mais vezes por ver felizes, e também aqueles que mais olham por mim. Cresceram comigo, aturaram nóias e manias, e ficaram comigo através da doença. Na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe - isto não é um casamento, é uma irmandade. 

Somos três, somos todas mulheres, é demasiado estrogénio. É chato quando a TPM vem ao mesmo tempo, é chato quando tratam de fazer panelinha, é chato quando me julgam e ainda pior quando acham que sabem mais que eu. Mas por outro lado acaba por ser divertido fazer de pseudo-mãe e dizer-vos que estão mal agasalhadas, ou para tirarem as mãos da boca, ou para nunca fumarem que faz mal à saúde. 

Se seguirem o meu exemplo, sabem que não vão ser felizes. Façam sempre o que gostam, sempre. Não se deixem ficar só porque não há dinheiro, porque a mãe não deixa e o pai não quer. Voem mais alto que eu, muito mais alto. Não se deixem ficar só porque um papel vos diz que não. Não sigam os maus exemplos que vos dei, não achem mal de vós mesmas só porque um bando de idiotas vos chamava nomes e vos batia na escola.

Vocês são o meu legado, e aquilo em que tenho mais orgulho. Lutem sempre até ao fim. No que puder, luto convosco. <3 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Mais uma noite de insónia. Os comprimidos não ajudam. Então, de volta aos básicos: a escrita. Há uns anos atrás, acordava a meio da noite assustada, nervosa, banhada em suor e às vezes em lágrimas e nunca sabia do que era. Hoje as insónias permanecem. E aqui estou eu, às quatro da madrugada. 

Afinal, que faço eu aqui ? Escrevo, apenas, sem sentido nem destino, sem saída. Sem saída... Se calhar é isso que me atormenta, noite após noite - não há saída para o labirinto infindável que é a minha mente, já lhe conheço todos os cantos e recantos e ainda assim fico presa qual Alice no País das Maravilhas por causa do "mundo lá fora".

Não comas isto, não faças aquilo. Não fumes, não bebas, não fodas. Sê a menina que tens de ser. Faz isto enquanto sais do labirinto e o mundo lá fora cá te espera. E foi o que fiz - com algumas nuances, claro. No meio do labirinto nem tudo são rosas. 

Mas tudo parece mau, tudo parece um desastre até haver aquela pequena luz branca lá no fundo que nos diz que se calhar tudo vai ficar bem. Se calhar o próximo troço vai ser melhor que este - é capaz de haver menos dragões para matar. Mas, se os houver, venham eles. Quem mata um, mata vinte. 
 
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